Tuesday, May 28, 2013

Generosidade gratuita

Aqui em Londres é muito comum os money transfers. São empresas que enviam dinheiro para outros países sem necessariamente passar pelo sistema bancário: logo, livre de tarifas. Mas muitas vezes a taxa para o envio não compensa (pelo menos para o Brasil,já vou avisando...)  Esses dias eu vi um anúncio que me chamou a atenção. Ele tinha como slogan- Can love be transferred? Yes!

A minha primeira reação foi negativa. Amor NÃO pode se transferido.  Apesar de saber que na época de Natal, vários imigrantes enviam quantias consideráveis para o seus entes queridos que continuam na sua terra natal. Confesso que minha  resistência vem daquele pensamento romântico de que amor, ou outros sentimentos, não possuem valor de mercado, ou não podem ser considerados commodities.

Tal a surpresa quando o tema da minha aula foi mais ou menos esse - a diferença entre gift economies e market economies. O debate ficou tenso quando chegamos a conclusão de que, mesmo inconscientemente, fazemos algo esperando um retorno. Isso incluindo relacionamentos. Existe uma troca, um valor simbólico em questão. Eu me lembro de um amigo que uma vez me falou que um relacionamento afetivo estava mais para um jogo de frescobol do que para um pingue-pongue: uma dança onde um ajudava o outro, sempre com um equilíbrio, numa parceria ao jogar a bola. Bom, eu na época não entendi nada, até porque não gosto de jogos. 

Enfim, dez anos depois eu saquei a parada. Vivemos num mundo de troca. Nem vou entrar na discussão de que tudo já é facilmente convertido em mercadoria, até porque um gift nem sempre é uma commodity. Isso talvez fique para outro post. Mas ajuda saber que, em diferentes níveis, todos queremos algo em troca.  Talvez expectativa seja o nome para esse sentimento de reciprocidade. Talvez não. 

O debate é bom e sempre alguém fica ofendidinho com a ideia de que generosidade gratuita não é algo tão presente assim na nossa sociedade, nem hoje, nem nunca. Tipo eu, com o amor que não pode ser transferido. Pode sim.

Reconhecer isso talvez deixe a vida mais simples. Talvez ajude a lidar com as expectativas. Tipo, sem grilos: eu faço o jantar e você traz o vinho, e está tudo bem resolvido. :)










Saturday, May 25, 2013

Clichetes

Este mês escrevi sobre as Mulheres Hondurenhas no Clichetes
Vai lá!


A imagem é do Cartoons for change, campanha de 2011. Saiba mais aqui.


Thursday, May 23, 2013

As amigas jamaicanas

Trabalho com duas jamaicanas e tenho várias clientes da mesma nacionalidade. Quando comecei nesse trabalho, as jamaicanas eram as que mais me assustavam: elas falam alto, meio cantando e têm um gosto bem extravagante. Com o tempo, você já começa idenficá-las sem ser necessário nenhum diálogo, basta ver uma calça de oncinha, com uma blusa  de zebrinha, uma unha de cada cor e cílios postiços com pedrinhas e salto alto, numa coisa meio Isabelita dos Patins.

Quando elas ficam bravas e falam que vão meter a mão na sua cara, minha amiga, pode esperar. Ela não está sendo retórica, ela vai mesmo meter a mão na sua cara sem dó. Além de arrumar confusão, o segundo assunto predileto pelo o que eu percebi é SEXO: assim, em caixa alta mesmo. Acho que todas elas são meio viciadas.

Tirando essas considerações, eu adoro as minhas amigas jamaicanas. Como estão sempre prontas para a briga, várias me ajudaram a exorcisar os meus problemas recentes, seja me ajudando a xingar bastante, seja oferecendo ajuda para quebrar a cara do indivíduo em questão, seja para me mostrarem todas as formas, tamanhos, cores, preços e variedades de toys (vibradoresdisponíveis no mercado, ou seja simplesmente para encher a cara e dar risada. Gosto tanto delas que uma vez topei ir numa festa tradicionamente jamaicana conhecida como bachment... Bom. Baile funk fica no chinelo.

Apesar de falarem inglês como primeira lingua, quando conversam entre elas logo mudam para o Patwa (ou Patwah, Patois). De acordo com a minha amiga Diana, o patwa é somente falado e não escrito, por isso não pode ser considerado um idioma.

Ela me contou várias histórias sobre a Jamaica, que vão muito além de Bob Marley, acredite. Quem sabe um dia ainda faço um estudo etnográfico lá pelo Caribe!  Sonhar não custa nada :)




Vulnerável e feliz

2013 tem feito jus ao seu número 13. Pelo o que eu sei, e me perdoem os especialistas, 13 significa a Morte no tarot, e a esse significado se atribui o fim de ciclos, sejam eles emocionais ou materiais.

A verdade é que esse ano tem sido um chacoalhão atrás do outro: término de um relacionamento longo, mudança de casa (pela sétima vez), um emprego onde a estagnação impera, e portas e portas que se fecham todos os dias. Confesso que deu um certo desespero. Mas você sabe quando tudo dá tão errado, você começa a pensar que existe algum sinal divino: sei lá, a hora da virada! Tipo Jerry Maguire, Sob o Sol de Toscana, Comer, Rezar e Amar...hohoho

O segundo semestre sempre foi melhor para mim e continuo mantendo a fé nisso. Hoje eu assisti o vídeo dessa pesquisadora da área social no TED e fiquei pensando sobre a vulnerabilidade nossa de cada dia. Acredito que todos procuramos por amor e pertencimento. E desde que vim para Londres isso foi o que menos encontrei, infelizmente. Ou felizmente. Porque são nessas horas que você percebe exatamente quem você é, conhece seus limites e, por vezes, se encanta com a sua própria força. Enfim reconhece a sua vulnerabilidade.

Conheço várias pessoas especiais para mim que estão passando por muitos desafios este ano, dos mais diversos e variados. Esse texto é para vocês. E veja só: no final descobrimos que não estamos assim tão sozinhos. Talvez pertencimento seja algo bem mais sútil do que imaginamos.






Novamente...

Escrever deve ser um vício, não é possivel. Depois de ter o Betsy e participar dos Cronistas, estou eu de volta: escrevendo banalidas sobre a vida cotidiana.

Foi por conta também dos fãs: meus 14 leitores insistiram muito para que eu voltasse a contar as minhas historinhas em Londres. Confesso que já não sei quanto tempo ficarei por aqui. Muitas mudanças, uma rasteira da vida e uns trocados mais pobres me fizeram rever o meu futuro. Mas se me perguntarem quanto tempo ainda ficarei por aqui, já vou dizendo: vou ficando...Vou ficando. :)