Wednesday, October 23, 2013

Qual a capital da Malásia?

Quando eu saí da faculdade, eu tive a sorte, ou o azar, de conseguir um emprego fodástico. O problema é que quando você é imaturo, você acha que a regra é conseguir empregos fodásticos, e dai fode tudo...

Então depois de sair do meu emprego fodástico eu percebi que EU não era assim tão foda: eu não sabia quem era Monty Python, eu nem tinha lido um livro do Nelson Rodrigues... Ah, sim, eu tinha. Mas se você me perguntar para responder rápido, assim num clique, eu não vou saber... Porque eu fico nervosa. E ai não consigo falar. Sou péssima em jogos de  -pensa rápido, sempre fui. 

E dai vem a razão do post de hoje - essa paixão dos ingleses por Pub Quiz. Eles gostam... E gostam muito!  Todas as quartas-feiras, após o trabalho, eu vou ao pub quiz. E é um exercício de tolerância comigo mesma. Eu não sei nada. N-A-D-A. Mal consigo entender a pergunta, quiçà a resposta. 

E há de haver um pouco de self-tolerance quando você percebe que é uma pseudo-intelectual e que se acha uma fodona. Na verdade, sou bem pobrinha. Isso há dez anos teria me matado. Mas hoje... Hoje percebo que sou mesmo uma aluna da pré-escola. E me sinto bem feliz. 

Feliz por poder viver outras culturas... Isso tudo pede humildade. Humildade para sair da sua zona de conforto e se expor... A situação nem sempre é confortável, mas como diria minha amiga lucy- é o que temos para o momento. 

Ainda bem. 


Monday, September 9, 2013

Ayla - a princesa de Uganda

Eu sempre me referi a Uganda como sendo o pior lugar do mundo para nascer, por conta dos dados da pobreza do país. Sempre vinha a minha cabeça aquela imagem de crianças esfomeadas no deserto... Isso até conhecer Ayla, a princesa de Uganda.

De uma família rica e tradicional, sua geração foi a última a desfrutar dos privilégios financeiros. Nascida em Uganda, mas criada num colégio interno na Holanda, suas maneiras e disciplina me lembravam uma pessoa da nobreza (quero dizer, dos filmes de nobreza que eu assisti, porque nobre, nobre que eu conheça… Só na TV :)). 

Sua história tinha tudo para ser um folhetim da Sabrina - desde os três anos num colégio interno, quando o pai ficou doente, nomeou um "guardião" para ela e a irmã, no qual deveria cuidar dos bens e da educação das meninas. Nem preciso dizer que o guardião gastou o dinheiro com mulheres e bebidas... Deixando as meninas a ver navios.

Conheci Ayla no meu emprego. Aquele mesmo que me paga mal, me irrita e me faz questionar todos os dias a minha permanência aqui. Mas é nesse trabalho que conheci Ayla e tantas outras pessoas incríveis. Ayla calhou de ser meu segundo anjo - assim chamo as pessoas que entram na minha vida para dar um significado as coisas. O meu primeiro anjo foi Ana Paula, em Londrina. Ela abriu portas e me ajudou quando eu estava no escuro. E sua ajuda não foi só financeira, mas espiritual. Isso tudo em 1997/1998.

Ayla me abriu os olhos para algumas coisas. Nossas conversas me fizeram questionar certezas e a ultrapassar minhas próprias convenções. Eu poderia também chamá-la de Ayla - a guerreira de Uganda.  Mas isso pouco importa - princesa e guerreira, Ayla 
é como todas nós - uma mulher em busca de seus sonhos e que, como nos romances,  merece ter um final feliz. 










Sunday, July 28, 2013

O landlord psicopata

Faz três anos que moro em Londres. E eu já me mudei 8 vezes. Algumas cheias de empolgação, outras bem traumáticas. Mas nunca, nada vai superar a minha experiência com o landlord psicopata.

Veja bem, eu não saio por aí chamando as pessoas de psicopatas. A não ser que elas me dêem um motivo. Do tipo entrar no seu quarto para mexer nas suas coisas, proibir você de comer dentro do quarto (incluindo um chocolatinho à noite) ou vasculhar o seu lixo para checar se você estava comendo ou não, dentro do SEU quarto. Aquele que você PAGA para viver.

Eles eram um casal inofensivo: ela brasileira e ele argentino (eu deveria ter supeitado dessa combinação...). Para morar na casa, você tinha que trabalhar full time. Como exceção do casal, eles viviam de benefícios do Governo. Os primeiros sinais da psicose se mostraram na rota para fazer a limpeza da casa. Todos os flatmates eram obrigados a fazer o cleaning- ou pagar uma taxa de 20 pounds.

A lista para fazer o cleaning era composta por duas páginas do word, fonte arial 10. Super detalhada. Após a limpeza, ele ia checar se você tinha feito tudo do jeito correto. Porque sim, havia um jeito "correto" de fazer a faxina. O mais interessante é que os únicos que realmente usavam e sujavam a sala e a cozinha eram o casal, mas eles não participavam da rota de limpeza.

Usar a cozinha quando ele estava por perto era um pesadelo: ele reclamava de como você enxugava a pia, usava faca, cortava a cebola ou cozinhava a SUA comida. Sim, o cara era um freak.

Outras três moças já tinham sido "expulsas" de lá, com um aviso prévio de 15 dias para arrumar outra casa. Uma delas teve que sair véspera de Natal, uma outra, de 20 anos, não conhecia ninguém em Londres e teve que arrumar uma casa em duas semanas. É claro que ele só aceitava moças, um homem lá já teria quebrado a cara dele.

Ele não aceitou meu notice na data prevista, e com isso eu perdi a minha viagem  para Lisboa, perdi meus tickets, não vi minha família e acabei trabalhando no dia do meu aniversário. Mas no final deu tudo certo e hoje estou bem. Bem aliviada. E a lição aprendida foi nunca mais morar em casa onde o landlord mora também. ;)



Fonte da imagem.

O moço, o Tarot e o Pastel

Pedi a uma amiga para ler o tarot para mim. E ela leu. Duas vezes. E estava lá, o homem. Fiquei toda empolgada. Foi então que conheci o fulano de tal. Num museu. Num evento de antropologia. Tudo perfeito.

Fiquei mais empolgada.

Trocamos email. Voltei a consultar o tarot online (desses de graça que encontramos na Internet). Tudo lindo, tudo assim: é isso aí, esse é o momento. Cansada do tarot, fui para o jogo das 3 runas. A pergunta era a mesma: vai rolar alguma coisa com o mocinho (tipo, pergunta de quem tem 15 anos né...tsk tsk tsk). E as Runas diziam, sim sim sim.

No outro dia, a mesma coisa: sim sim sim. E no outro também: sim sim sim.

Bom, após uma das nossas conversas eu me enchi de coragem e chamei o mocinho para comer pastel (ele já tinha mostrado interesse pela culinária brasileira).

Primeiro dia sem resposta. Achei que, afinal, ele poderia estar ocupado.
Segundo dia sem resposta. Já fiquei meio ansiosa. Corri para as Runas e lá estava: Não.

Como assim?????

Após um mês eu já tinha percebido que o mocinho não estava tão interessado. Tudo culpa do tarot, claro! Que ficou me atentando. Mas você sabe como que é né, hoje fui lá jogar o tarot online de novo. E estava lá: Surpresas para você!

Humpf. Sei.

Na dúvida, hoje eu vou ficar em casa.




Imagem daqui ó

Saturday, June 22, 2013

Você não tem olho azul, seu feio!

Semana passada eu tive a melhor aula ever sobre Raça, Etnias e Nacionalismo. É impressionante perceber como raça é uma construção puramente social, propagada pela visão Western de superioridade.

Triste perceber como alguns padrões, como o de beleza, continuam a perpetuar essa visão ocidental de superioridade. Apesar desse ser um assunto riquíssimo, vou me ater ao vídeo que foi apresentado na aula- uma classe dividida. Antigo, mas super atual:




E aqui tenho dois pontos a serem mencionados:

1- Como as crianças são frágeis. Dizer que elas são melhores ou piores, de acordo com a cor de seus olhos, mudou completamente a relação em classe. Os até então melhores amigos se tornaram inimigos em questão de minutos. Tudo baseado num critério estético socialmente embutido: as crianças de olhos azuis são melhores (ou vice-versa).

2- Como nossas palavras são poderosas e podem afetar uma criança pelo o resto da sua vida. O próprio desempenho em classe foi influenciado diretamente pela sensação de superioridade e merecimento. Os olhos azuis são melhores (ou vice-versa).

Por isso, cada dia mais acredito na força das palavras. Acho que deveríamos criar uma campanha do tipo, você já fez um elogio hojeO que você acha? ;)







Sunday, June 16, 2013

As mães nigerianas

Essa semana vi um menino sendo preso na minha frente, na verdade, em frente ao lugar onde trabalho. Ao que parecia, o menino estava vendendo drogas no ponto de ônibus para outros estudantes. Ele também estava de uniforme de escola e foi abordado por dois policiais à paisana.

Aqui a coisa funciona mais ou menos do mesmo jeito: os mais velhos e experientes usam meninos mais jovens para distribuir "o material". Eu, da janela do meu trabalho, fiquei assistindo o episódio. Na verdade,o garoto estava suando e parecia muito, muito nervoso. Vendo a reação do menino lá do meu trabalho, chegamos à seguinte conclusão: ele não estava com medo da polícia, ele estava com medo da mãe dele. Explico: medo da mãe nigeriana.

Só quem tem uma, ou conhece alguém que tenha, sabe do que eu estou falando. Um dos meus amigos disse que se algo assim acontecesse com ele, meodeos, melhor não voltar mais pra casa. Ele seria esfolado vivo. Já presenciei a mãe dele no trabalho, checando quanto tinha sido o seu salário e qual seria a parte dela. Ele tem mania de arrumação e é categórico em dizer que herdou isso da mãe. Ai dele se a casa não estiver arrumada. Outra amiga querida, briguenta e sem papas na língua, é outra pessoa na presença da mãe. Seu vocabulário é cheio de sim, claro, obrigada. Quando eu questionei sobre essa reação tão "polite", todos eles olham com a mesma expressão: Brov, u dunno what I am talkin about...

Bom, não sei mesmo. Mas já atendi muitas mães nigerianas e a grande maioria recorre a empréstimos para ajudar a prole ou alguém da família. Já testemunhei casos de mulheres que trabalhavam em dois, três empregos para poder mandar dinheiro para Nigéria, ou ajudar na educação dos filhos aqui  (em Londres). Ela são muito trabalhoras e guerreiras. E eu sempre tive muita admiração por isso.

Eu imagino que mais complicado que uma mãe, só mesmo uma sogra nigeriana. Mas enfim, esse já é assunto para outro post. ;)



Ah...A imagem é de Tayo Fatunla. E eu tirei desse post onde tem vários outros cartunistas com trabalhos muito legais. Vai lá!

Tuesday, May 28, 2013

Generosidade gratuita

Aqui em Londres é muito comum os money transfers. São empresas que enviam dinheiro para outros países sem necessariamente passar pelo sistema bancário: logo, livre de tarifas. Mas muitas vezes a taxa para o envio não compensa (pelo menos para o Brasil,já vou avisando...)  Esses dias eu vi um anúncio que me chamou a atenção. Ele tinha como slogan- Can love be transferred? Yes!

A minha primeira reação foi negativa. Amor NÃO pode se transferido.  Apesar de saber que na época de Natal, vários imigrantes enviam quantias consideráveis para o seus entes queridos que continuam na sua terra natal. Confesso que minha  resistência vem daquele pensamento romântico de que amor, ou outros sentimentos, não possuem valor de mercado, ou não podem ser considerados commodities.

Tal a surpresa quando o tema da minha aula foi mais ou menos esse - a diferença entre gift economies e market economies. O debate ficou tenso quando chegamos a conclusão de que, mesmo inconscientemente, fazemos algo esperando um retorno. Isso incluindo relacionamentos. Existe uma troca, um valor simbólico em questão. Eu me lembro de um amigo que uma vez me falou que um relacionamento afetivo estava mais para um jogo de frescobol do que para um pingue-pongue: uma dança onde um ajudava o outro, sempre com um equilíbrio, numa parceria ao jogar a bola. Bom, eu na época não entendi nada, até porque não gosto de jogos. 

Enfim, dez anos depois eu saquei a parada. Vivemos num mundo de troca. Nem vou entrar na discussão de que tudo já é facilmente convertido em mercadoria, até porque um gift nem sempre é uma commodity. Isso talvez fique para outro post. Mas ajuda saber que, em diferentes níveis, todos queremos algo em troca.  Talvez expectativa seja o nome para esse sentimento de reciprocidade. Talvez não. 

O debate é bom e sempre alguém fica ofendidinho com a ideia de que generosidade gratuita não é algo tão presente assim na nossa sociedade, nem hoje, nem nunca. Tipo eu, com o amor que não pode ser transferido. Pode sim.

Reconhecer isso talvez deixe a vida mais simples. Talvez ajude a lidar com as expectativas. Tipo, sem grilos: eu faço o jantar e você traz o vinho, e está tudo bem resolvido. :)










Saturday, May 25, 2013

Clichetes

Este mês escrevi sobre as Mulheres Hondurenhas no Clichetes
Vai lá!


A imagem é do Cartoons for change, campanha de 2011. Saiba mais aqui.


Thursday, May 23, 2013

As amigas jamaicanas

Trabalho com duas jamaicanas e tenho várias clientes da mesma nacionalidade. Quando comecei nesse trabalho, as jamaicanas eram as que mais me assustavam: elas falam alto, meio cantando e têm um gosto bem extravagante. Com o tempo, você já começa idenficá-las sem ser necessário nenhum diálogo, basta ver uma calça de oncinha, com uma blusa  de zebrinha, uma unha de cada cor e cílios postiços com pedrinhas e salto alto, numa coisa meio Isabelita dos Patins.

Quando elas ficam bravas e falam que vão meter a mão na sua cara, minha amiga, pode esperar. Ela não está sendo retórica, ela vai mesmo meter a mão na sua cara sem dó. Além de arrumar confusão, o segundo assunto predileto pelo o que eu percebi é SEXO: assim, em caixa alta mesmo. Acho que todas elas são meio viciadas.

Tirando essas considerações, eu adoro as minhas amigas jamaicanas. Como estão sempre prontas para a briga, várias me ajudaram a exorcisar os meus problemas recentes, seja me ajudando a xingar bastante, seja oferecendo ajuda para quebrar a cara do indivíduo em questão, seja para me mostrarem todas as formas, tamanhos, cores, preços e variedades de toys (vibradoresdisponíveis no mercado, ou seja simplesmente para encher a cara e dar risada. Gosto tanto delas que uma vez topei ir numa festa tradicionamente jamaicana conhecida como bachment... Bom. Baile funk fica no chinelo.

Apesar de falarem inglês como primeira lingua, quando conversam entre elas logo mudam para o Patwa (ou Patwah, Patois). De acordo com a minha amiga Diana, o patwa é somente falado e não escrito, por isso não pode ser considerado um idioma.

Ela me contou várias histórias sobre a Jamaica, que vão muito além de Bob Marley, acredite. Quem sabe um dia ainda faço um estudo etnográfico lá pelo Caribe!  Sonhar não custa nada :)




Vulnerável e feliz

2013 tem feito jus ao seu número 13. Pelo o que eu sei, e me perdoem os especialistas, 13 significa a Morte no tarot, e a esse significado se atribui o fim de ciclos, sejam eles emocionais ou materiais.

A verdade é que esse ano tem sido um chacoalhão atrás do outro: término de um relacionamento longo, mudança de casa (pela sétima vez), um emprego onde a estagnação impera, e portas e portas que se fecham todos os dias. Confesso que deu um certo desespero. Mas você sabe quando tudo dá tão errado, você começa a pensar que existe algum sinal divino: sei lá, a hora da virada! Tipo Jerry Maguire, Sob o Sol de Toscana, Comer, Rezar e Amar...hohoho

O segundo semestre sempre foi melhor para mim e continuo mantendo a fé nisso. Hoje eu assisti o vídeo dessa pesquisadora da área social no TED e fiquei pensando sobre a vulnerabilidade nossa de cada dia. Acredito que todos procuramos por amor e pertencimento. E desde que vim para Londres isso foi o que menos encontrei, infelizmente. Ou felizmente. Porque são nessas horas que você percebe exatamente quem você é, conhece seus limites e, por vezes, se encanta com a sua própria força. Enfim reconhece a sua vulnerabilidade.

Conheço várias pessoas especiais para mim que estão passando por muitos desafios este ano, dos mais diversos e variados. Esse texto é para vocês. E veja só: no final descobrimos que não estamos assim tão sozinhos. Talvez pertencimento seja algo bem mais sútil do que imaginamos.






Novamente...

Escrever deve ser um vício, não é possivel. Depois de ter o Betsy e participar dos Cronistas, estou eu de volta: escrevendo banalidas sobre a vida cotidiana.

Foi por conta também dos fãs: meus 14 leitores insistiram muito para que eu voltasse a contar as minhas historinhas em Londres. Confesso que já não sei quanto tempo ficarei por aqui. Muitas mudanças, uma rasteira da vida e uns trocados mais pobres me fizeram rever o meu futuro. Mas se me perguntarem quanto tempo ainda ficarei por aqui, já vou dizendo: vou ficando...Vou ficando. :)